
Quando ainda criança meus dias recheados de alegria, como o lanchinho doce do fofão, longe de toda preocupação do mundo adulto, das responsabilidades e de regras, leis, impostos e horários – não haviam problemas ou qualquer outra coisa no mundo capaz de me afligir.
Lembro-me ainda das manhãs de domingo ao som de música sertaneja meu pai, Neco Lagoeiro, um excêntrico artista/carpinteiro, ensaiava suas ávidas marteladas em lindos móveis, buscando apressar a entrega de encomendas já ha alguns meses atrasada. Ele batia com seu martelo como se tentasse pedir ao mundo que desse mais tempo para sua criação.
Minha mãe, Maria Helena, preparava aquele saboroso café, enquanto conversava pelo muro com a vizinha, dona do estridente rádio que já as oito da manhã berrava “Milionário e José Rico” e ritmado por um som abafado muito peculiar...
– “Dona Maria deve estar animada hoje, o que senhora está preparando de bom?” – perguntava logo minha mãe.
– “Nada não ‘Neninha’ (apelido carinhoso que a vizinha dera minha mãe) só um pão caseiro recheado com torresmo que eu vou assar pro Zé levar na pescaria”; respondia a Dona Maria, uma alagoana dona de receitas caprichadas.
Meu pai claro ao ouvir as palavras mágicas comida e pescaria soltava as ferramentas e procrastinava por mais alguns meses sua obra, vinha logo ao muro e gritava:
– “O Zé to indo junto! Vou levar meu filho João (eu) e a cerveja...”; dizia logo meu pai que demorava anos para montar um simples armário, mas rapidamente sabia como montar uma diversão. Cerveja, comida, pescaria e às vezes eu, seu filho, eram talvez as coisas que meu pai mais gostava.
Pescaria boa era esta que a gente saia meio que apanhados de surpresa e íamos sem ter hora para voltar.
– “Bem meu filho, certas coisas não pode combinar muito porque chove!”; já profetizava meu saudoso pai.
Bem! “Tralhas” prontas, lanchinho caseiro ainda quentinho embrulhado em um pano de prato, seu Zé já esquentava o motor da velha caminhonete e depois de pouco ensaio e sempre com muita disposição, claro, saímos em busca de um domingo de pescaria... À procura de diversão! Em busca do desconhecido!
Hoje, adulto, professor formado, quando penso nas instituições que trabalho e já trabalhei vejo quantas vezes perdemos ótimas manhãs de domingo combinando e quando fomos fazer estava chovendo...
Gostaria muitas vezes de saber qual o verdadeiro significado dos planejamentos, reuniões e horários de trabalho pedagógico coletivo (o famoso HTPC), quando na verdade o que fazemos é jogar conversa fora! Uma total perda de tempo!
Um encontro quinzenal com palestras e cursos de capacitação permanente, com temas pertinentes a realidade da unidade escolar, podendo contar com o auxílio de alguns convidados, mas basicamente sendo totalmente coordenado e estruturado para atender os anseios da classe docente e os problemas reais enfrentados no dia-a-dia com um trabalho de pesquisa(ação), junto aos alunos e a comunidade, já seria, mais que o suficiente para nortear uma instituição. Quando se tem envolvimento o plano dá lugar às metas!
A escola que tem um “diretor-líder” competente, que pode contar com a participação dos pais, com uma equipe de suporte engajada e comprometida e principalmente possui uma META clara e objetiva, assim como meu velho pai que tinha tão claro como fazer seu ofício que não respeitava prazos de tempo ou intempéries e nem deixava de lado seu lazer. Pois, quando temos claro aquilo que queremos fazer não fazemos planejamentos e muito menos sonhamos – sonhos são nuvens de algodão – metas que nunca alcançaremos! Se por outro um lado planejar é por no plano, ou seja, igualar; devemos então reconhecer que o caminho é tortuoso, que demanda tempo e devemos tratar nossas metas como um ALVO que está no alto de uma montanha, mas é possível de alcançar!
O processo de aprendizagem não é e nunca será contínuo e regular. O conhecimento é a flecha que busca alcançar este alvo ou metas. No sobe e desce da “montanha-russa” do processo de ensino-aprendizado faz-se necessário quebrar os padrões estáticos de equilíbrio provocando um estado de adequação ou adaptação, não esperando que a alvo chegue perto, mas sabendo que a maturidade e a paciência fazem parte deste processo. O bom deste caminho é o caminhar e contemplar as belezas ao seu redor. Os objetivos no final são consequências de muito esforço.
Se não podemos planejar tudo que será ensinado, então fazê-lo fruto do acaso poderia ser uma solução?
Não! Obviamente seria incoerente acreditarmos que todos apreenderiam ao acaso. Sabemos que com tempo o indivíduo passa a ser menos dependente dos adultos e passa a assimilar experiências acumuladas ao longo de sua história e conforme vai crescendo passa a dar diferentes significados a este conhecimento e assim assimilá-lo e compreende-lo mais facilmente. Devemos acompanhar, mediar e avaliar esta evolução conforme nossa realidade, vendo cada caso individualmente como as peças raras criadas, talhadas e reformadas na mão de um carpinteiro.
No meio professorado é necessário admitir que a nossa obra ainda esteja inacabada e não será em uma simples reunião ou em uma avaliação única que resolveremos tudo.
Batemos na cabeça do aluno como um martelo: “Estude! Estude! Estude!” Mas, podemos nos dar ao luxo de vez em quando pararmos a caminhada e apreciarmos a beleza ao redor. Isso serve também de aprendizagem e temos que nos dar o direito de ter momento de lazer em uma bela manhã de domingo e simplesmente pararmos de golpear o velho martelo!
Infelizmente o que vimos são corpos aprisionados neste sistema de hipocrisias em um tempo de produção alienada de repetição sem conhecimento e reflexão, sem metas ou objetivos claros. Nunca em uma linha de montagem de uma grande fábrica de móveis os trabalhadores vivenciaram todo processo de criação e também nunca poderão desfrutar de horas de lazer durante o expediente, mas por outro lado das mãos de artesão e carpinteiros competentes é que saem os melhores e mais duráveis móveis – peças únicas de valores inestimados. Assim são nossos alunos, obra ímpar capaz de modificar-se com o tempo.
Enquanto nós educadores deixarmos o melhor da vida passar tentando agir contra a lógica e contra o relógio – como se pudéssemos pescar e aprisionar o tempo – viveremos nesta angústia sem fim! Mas e o velho planejamento, os horários de reuniões e trabalhos pedagógicos?
Bem meus amigos estes coisas não podemos combinar muito porque chove!
Pensem nisso...

